domingo, 14 de agosto de 2016

Ressonância.


Apoio a desavença entre o metafórico e o científico. Não tenho prensas que prensem as palavras, sou um escritor com doenças.
Sofro de parágrafos desalinhados e linhas inteiras riscadas.
Sofro de anemia vocabulária;
Pneumonia literária.

À noite, sonho o dia e, de dia,
Sofro pela miséria de caligrafia que vou ter no próximo dia;
No dia seguinte - respiração solene,
Pele fria,
Se tivesse os pés quentes
A caneta nunca escreveria.
Bafo gelado, sinto-me um lobo no meio dos lobos,
Bato no peito e o bafo no peito responde com eco
Que nem o oco se ouve.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Aneurisma.

Folhas pálidas, não me despertam vontade.
Pouco presente.
Odor nauseabundo a ausência. De mim?

Pouca abundância de vontade e dormência dos membros superiores.
Ausência de odores que as dores libertam. Já nada liberta nada.
A falta de horrores tornou-se na constante presença, de horrores.
Poucas cores. Pouco presente.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Local.

Não me afogo na tua imagem. Afogo-me nas palavras, que escrevo para ti. Não fosse eu ser tão bom nadador-salvador quanto a minha caneta que, quando te metes em sarilhos, lança a bóia. Que te arrasta para fora de um mar de riscos e te seca o cabelo, com outra página.



O aroma é o de um rebuçado de café. Já velho e sem cor, colado à secretária, embrulha-se e encaixa na perfeição com o padrão deste quarto: Pálido.
Não sou de doces nem quero que me adocem os poros, mas a ausência de açúcar proporciona-me tranquilidade.
Talvez a falta de sensibilidade ortopédica justifique a minha apatia sanguínea... Ou talvez não.



terça-feira, 19 de abril de 2016

Página 18.



O fluxo parou. A morfina fez efeito. Ainda sinto a enzima que outrora me proporcionava deleito.
Porque me deito?
Por quem me deito?
A morfina ainda está a fazer efeito. Não sei como, mas o fluxo continua estagnado.
Como é que eu vim aqui parar?

Noite sim, noite não, deixo-me levar pela inaturalidade. Ou pela naturalidade inexistente. Ou pelas palavras inventadas pela minha mão direita. Nem a minha cama está direita… Fora de sítio nada paralela a uma parede pouco ou já nada encarnada. O quadro com a fotografia de Nova Iorque está praticamente na vertical… As cortinas não estão corridas. Os estores continuam a não ser colhidos. Faz tempo que esta divisão onde pernoito não respira ar fresco. Há largos meses, que não inala outra coisa a não ser dióxido de carbono. Sinto-o embriagado.

Sinto o caderno às borbulhas. Tenho receio de rebentar uma bolha e de o transformar numa bola de sabão. A pressão em cada traço delineado nunca foi tão bem medida, como é agora. Passei horas a procurar no teto por pequenos salpicos mas, aparentemente, esqueci-me de que este meu pequeno caderno não se abre por quem não o abre.
Hoje, surpreendentemente, abriu e para meu deleito, tenho tinta na esferográfica. Sinto que ela quer que eu quero que ela te sinta.
Hoje estico o amarrotado. Hoje, desenleio-nos.

Tenho saudade que me preenchas a palma da mão. Que me separes os dedos e sintas os meus ossos literários.
Tenho saudades de sentir saudades quando acordo de manhã.
Tenho saudades de mim, quando te tinha. Quando nos tinha.




Já te disse que a minha mente tresanda a mofo?

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Mindset.


Já não te lembras... Desde quando?
Hoje desmembras a vontade e sabes a um brandy brando;
Sabes a um terreno que não passou pelo poisio,
A um veneno que outrora foi sereno como as águas do nosso rio.

Respira, o mundo só retira a quem lhe tira,
Só volta a inspirar aquele não expira ira;
A mira não é tão ampla assim,
Miras a campa, mas o alvo é o mundo com um poço sem fim.

Congelas-me com o teu frio, sabes a baixas temperaturas,
És as mangas do meu casaco mas não encaixas nos meus braços nem tampouco os seguras.
É um aspirador de momentos,
Uma sanguessuga de pensamentos,
Tão dependentes de lamentos que não plantamos sementes,
Não colhemos rebentos.

Rebenta a bolha, a vida não passou do papel,
Uma rúbrica na folha tem que ser feita com tudo, menos com uma caneta a gel.

sábado, 26 de março de 2016

Mofo.


Ardem, no vazio, chamas monocromáticas. Labaredas geladas que transcendem o seu próprio espaço. Sinto-me como o hall de entrada de uma casa despida no coração da cidade. Doem-me as paredes, e as portas. Doem-me as maçanetas semibrancas, manchadas com a saudade do suor de quem as segurava. 
Dói-me o sangue. 
Sinto arrepios nas cortinas por cada passada larga que dão lá fora, na calçada. Ninguém chega a espreitar e, por cada alma tentada a janela é trancada. Não é que tema em ser hospitaleiro mas o que vem primeiro é o cheiro, e a minha mente tresanda a mofo.
De luz apagada, respiro.