terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Mens Sana.


Sinto o frio a abraçar-me os dedos dos pés; obriga-me a enrolá-los.
Nem com meias grossas lhe escapo e não tenho as tuas pernas, ao pé de mim.
Sentir-me-ia tranquilo se te tivesse todos os dias à minha espera, no sofá, debaixo da manta amarela com a caneca de leite morno a aquecer-te as mãos. De cabelo solto, despenteado, de óculos postos a olhar para mim enquanto penduro o casaco, encharcado.
É assim que eu tenho chegado a casa, encharcado de saudades tuas.
Do que nunca tive.

Anseio-te como anseiam os cientistas pelos raros eclipses lunares.
Anseio-te pela magia e a atração subliminar que apresentas na sinopse desse teu livro, escondido nas prateleiras da maior biblioteca do mundo.

Que privilégio. Tenho-te nas minhas folhas como mais ninguém tem alguém.
Como mais ninguém alguma vez irá ter.



Já te disse que tenho frio nos pés?

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Corvo.


Esvoaço.
Camisa de mangas compridas; arregaço?
Perdido num espaço sem espaço para lúcidos. Embaraçosa, a minha postura.
Ela vestida de poesia e eu, de prosa tamanho XL. Poliéster em segunda mão que nas horas de maior calor me irrita a pele, e a alma.
Transpirasse eu calma, quando me fervilhas o peito.
Já com os pés descalços pedes-me que vá lá para fora, fumar ao parapeito.
Eu respeito.
De mangas arregaçadas, debruçado no 3º andar, mato o segundo cigarro.
E ponho-me aqui a pensar...
Será que se eu tirar primeiro as tuas calças, vais voltar a pedir-me o isqueiro?

domingo, 14 de agosto de 2016

Ressonância.


Apoio a desavença entre o metafórico e o científico. Não tenho prensas que prensem as palavras, sou um escritor com doenças.
Sofro de parágrafos desalinhados e linhas inteiras riscadas.
Sofro de anemia vocabulária;
Pneumonia literária.

À noite, sonho o dia e, de dia,
Sofro pela miséria de caligrafia que vou ter no próximo dia;
No dia seguinte - respiração solene,
Pele fria,
Se tivesse os pés quentes
A caneta nunca escreveria.
Bafo gelado, sinto-me um lobo no meio dos lobos,
Bato no peito e o bafo no peito responde com eco
Que nem o oco se ouve.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Aneurisma.

Folhas pálidas, não me despertam vontade.
Pouco presente.
Odor nauseabundo a ausência. De mim?

Pouca abundância de vontade e dormência dos membros superiores.
Ausência de odores que as dores libertam. Já nada liberta nada.
A falta de horrores tornou-se na constante presença, de horrores.
Poucas cores. Pouco presente.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Local.

Não me afogo na tua imagem. Afogo-me nas palavras, que escrevo para ti. Não fosse eu ser tão bom nadador-salvador quanto a minha caneta que, quando te metes em sarilhos, lança a bóia. Que te arrasta para fora de um mar de riscos e te seca o cabelo, com outra página.



O aroma é o de um rebuçado de café. Já velho e sem cor, colado à secretária, embrulha-se e encaixa na perfeição com o padrão deste quarto: Pálido.
Não sou de doces nem quero que me adocem os poros, mas a ausência de açúcar proporciona-me tranquilidade.
Talvez a falta de sensibilidade ortopédica justifique a minha apatia sanguínea... Ou talvez não.



terça-feira, 19 de abril de 2016

Página 18.



O fluxo parou. A morfina fez efeito. Ainda sinto a enzima que outrora me proporcionava deleito.
Porque me deito?
Por quem me deito?
A morfina ainda está a fazer efeito. Não sei como, mas o fluxo continua estagnado.
Como é que eu vim aqui parar?

Noite sim, noite não, deixo-me levar pela inaturalidade. Ou pela naturalidade inexistente. Ou pelas palavras inventadas pela minha mão direita. Nem a minha cama está direita… Fora de sítio nada paralela a uma parede pouco ou já nada encarnada. O quadro com a fotografia de Nova Iorque está praticamente na vertical… As cortinas não estão corridas. Os estores continuam a não ser colhidos. Faz tempo que esta divisão onde pernoito não respira ar fresco. Há largos meses, que não inala outra coisa a não ser dióxido de carbono. Sinto-o embriagado.

Sinto o caderno às borbulhas. Tenho receio de rebentar uma bolha e de o transformar numa bola de sabão. A pressão em cada traço delineado nunca foi tão bem medida, como é agora. Passei horas a procurar no teto por pequenos salpicos mas, aparentemente, esqueci-me de que este meu pequeno caderno não se abre por quem não o abre.
Hoje, surpreendentemente, abriu e para meu deleito, tenho tinta na esferográfica. Sinto que ela quer que eu quero que ela te sinta.
Hoje estico o amarrotado. Hoje, desenleio-nos.

Tenho saudade que me preenchas a palma da mão. Que me separes os dedos e sintas os meus ossos literários.
Tenho saudades de sentir saudades quando acordo de manhã.
Tenho saudades de mim, quando te tinha. Quando nos tinha.




Já te disse que a minha mente tresanda a mofo?